Políticas nacionais

“O Ideb e a educação para a cidadania”, por Claudia Costin para a Folha de S. Paulo

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Os resultados do Ideb nos mostram que, pela primeira vez, as três etapas de escolaridade avaliadas avançaram e, mais ainda, que no ensino médio houve um salto, depois de anos em que o indicador esteve estagnado num patamar muito baixo. Além disso, é positivo verificar que todos os estados tiveram melhoras no indicador, com um destaque para Goiás e Espírito Santo, ambos administrados por governadores que assumiram como oposição a governantes com um bom legado em educação e tiveram a grandeza de continuar o que havia sido feito, agregando suas contribuições próprias.

Isso significa duas coisas: que educação foi percebida como política de Estado, e não de governo, e que vários secretários foram escolhidos com base em critérios técnicos, de competência para gestão da política educacional, e não para atender a demandas partidárias. Isso não ocorreu em todos os casos, mas é inegável que estamos diante de uma boa “safra” de secretários.

Essa evolução positiva do Ideb traz também dados interessantes quando olhamos para outros estados: o avanço do Paraná, que saiu de inaceitáveis 3,7, para sua rede estadual no ensino médio, para 4,4, com um secretário que foi trazido de outro estado; ou Pernambuco, que continua em sua trajetória virtuosa, iniciada em 2007, superando inclusive a meta para o ano de 2019.

Sim, os resultados poderiam ser ainda melhores se tivéssemos um senso de urgência com a educação, mas eles evidentemente contrariam uma percepção de parte da população de que estaríamos mais preocupados em educar para a cidadania que para o aprendizado básico necessário ao acesso ao mercado de trabalho.

Na verdade, educar para a cidadania enfatiza a ideia de ensinar os alunos a conviver, a trabalhar em times, a resolver problemas colaborativamente e a viver no pluralismo, percebendo-se como sujeitos ativos e comprometidos com a coletividade. Certamente não é decorar a visão de mundo de seus professores, muito ao contrário. É formar pensadores autônomos, capazes de formular seus próprios julgamentos, presas menos fáceis de populismos.

E, com o advento da inteligência artificial, as transformações no mundo do trabalho vão demandar jovens exatamente com essas competências. Em outros termos: não é formar para o mundo do trabalho ou, alternativamente, para a cidadania. As mesmas habilidades serão importantes para as duas condições.

Precisaremos daqui para a frente, como previsto na Base Nacional Comum Curricular, desenvolver nos alunos tanto as competências básicas quanto as que os preparam para a vida no século em que vivem, o que inclui trabalho e cidadania.

Claudia Costin
Diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da FGV e ex-diretora de educação do Banco Mundial.

Artigo publicado no dia 17 de setembro de 2020 no jornal Folha de S. Paulo. Confira a publicação original aqui.

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