*Texto de Yuri Norberto, professor do Ensino Médio do Centro de Excelência Atheneu Sergipense, da rede estadual de Sergipe, e organizador do Atheneu ONU

“Certamente você já deve ter ouvido que trabalhar com jovens é “dor de cabeça”, que eles “são irresponsáveis” e por aí vai. Entretanto, a história que eu tenho pra contar aqui é bem diferente e peço que leia tudo até o final, sem fraude nem favor.  Em 2012 assumi o cargo de Professor de Educação Básica no estado de Sergipe e logo fui trabalhar com estudantes de 14 a 17 anos que estavam no Ensino Médio, em uma cidade do sertão sergipano. Lá tive contato com jovens incríveis que me fizeram ser uma pessoa melhor e me motivaram a realizar muitas coisas. Uma delas foi o evento de maior impacto que fiz em uma escola: junto com outros professores, organizamos o Workshop de línguas e literatura, um evento tão grande que chegou a faltar energia na cidade. Tivemos a exposição de trabalhos grandiosos e que demandavam muitos recursos e toda a população parou para prestigiar as produções dos estudantes.

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Um ponto foi essencial para tudo isso ser tão impactante: eu decidi envolver os alunos em todas as etapas do processo – e te digo que foi a melhor coisa que fiz em minha carreira –  – porque era o que havia de mais importante para gerar impacto na vida deles. Essa não é uma geração fácil (como todas as outras), mas que tem uma especificidade que é marcante: eles querem fazer parte!

Em 2019, comecei a atuar no Centro de Excelência Atheneu Sergipense, escola de tempo integral em Aracaju. E aqui foi outra virada de chave na minha vida profissional e pessoal, pois tive a oportunidade de ter um Diretor, o Daniel Lemos, que incentiva e veste a camisa; . uma coordenação, com Conceição e Bergson, que motiva e orienta; ) e um time de pedagogos preparados, que são Mary, Eliane, Maria e Alberto. Além disso, tive colegas de profissão que possibilitaram um trabalho integrado. Nesse sentido, estar em uma escola de tempo integral foi essencial para que eu pudesse ter todas as condições para um contato mais próximo de meus alunos e por em prática todas as ações.

Nesse período, a palavra ‘protagonismo’ começava a ganhar espaço na rede em que atuava. Contudo, um ponto que me incomodava era que havia uma visão frágil e limitada do que significa protagonismo. Ou seja, não se trata apenas de ouvi-los ou deixar que façam o que querem, ou não falar sobre coisas sérias junto a eles. Estar junto deles exige entrega e o princípio fundamental é a troca de gerações, com doação recíproca de atenção e respeito, que não deve tirar nada do aluno.

Você vai me dizer que falar é mais fácil do que fazer, e entendo e acolho sua percepção. Afinal, protagonismo juvenil não é uma foto, é filme. Ele não é estático, é movimento. Ele não cabe no vazio de uma palavra, é um período inteiro e, por isso, precisamos ter consciência da caminhada. Eu bem sei que formar um jovem dá trabalho, mas ora, não é essa a beleza da educação? Atuar para transformar! Não há coisa mais linda e solene do que acompanhar um jovem se desenvolvendo É como se a natureza humana se apresentasse diante de ti como uma rosa desabrochando em câmera lenta. Cada passo em que a juventude toma consciência do que está fazendo e se entende como sujeito de seu processo: é aí que a Educação Socioemocional acontece.

Por isso, não prive nenhum adolescente de experimentar esse momento. É claro que erros e atropelos fazem parte da caminhada, mas ‘quem nunca’, né!? Cobrar perfeição de um jovem chega a ser perverso. Prefira se colocar como ouvinte e mentor, se deixe ter ciência de todo processo, refletir sobre as decisões que precisam ser tomadas. Faça mais perguntas que ofereçam respostas e vai ver como elegante é o momento quando eles dizem: “aaaah, professor, agora eu percebi o porquê disso.”Eu tenho por princípio evitar usar a palavra “não” com meus alunos, porque eles ouvem muito: “você não tá pronto”, “não é hora ainda”, “não sabe do que tá falando”, “não faz assim” e etc. Eu prefiro perguntar qual motivo de tal decisão, se pensaram em todas as variáveis, o que farão caso imprevistos aconteçam. Deixá-los decidir e ter ciência do processo, não se adquire habilidades socioemocionais na teoria, é preciso que tenha mão na massa, tirar a rodeirinha mesmo. E isso inclui errar – e eles vão errar -, mas prefiro trabalhar com a ideia de responsabilidade à culpa. Sempre que termino um projeto, organizo uma reunião de avaliação e a primeira pergunta é: onde a gente poderia ser melhor? Eu não evito falar sobre erros e lidar com ações que decidimos de forma errada, apenas ensino que ter noção disso é muito melhor.

Em Sergipe, organizo uma Simulação da Assembleia das Nações Unidas (Atheneu ONU), a maior da América Latina, com cerca de 1.000 adolescentes, e acreditem: é tudo organizado por alunos. Um deles, o Alex Melo, em 2021, fez um discurso que sintetiza tudo que escrevi e ensinei para ele em três anos. Compartilho aqui uma parte:

‘Estou há 3 anos nesse projeto, posso dizer que essa é uma experiência única e que vocês devem levar para vida. Desde que entrei no Atheneu ouvi a palavra “protagonismo”, mas só entendi o que de fato é protagonismo depois de passar por situações que nunca imaginei. Protagonismo juvenil é ter liberdade com responsabilidade, protagonismo é ser reconhecido como cidadão do mundo e poder exercer qualquer papel que você precisar, protagonismo é ocupar todos os espaços que vocês puderem e, se ninguém te der um espaço, ir lá e conquistá-lo. Mas protagonismo também é tomar decisões difíceis, é ser responsável pelo o que você diz e faz. É ser cobrado quando alguma coisa der errado e parabenizado quando der certo. Como dizia o Tio Ben: “grandes poderes, grandes responsabilidades”. Hoje, jovens alunos vão discutir os maiores problemas do mundo. Nesse espaço, os maiores acontecimentos do planeta terão que ser resolvidos. Mas a realidade, é que quando vocês saírem daqui // do atheneu // do atheneu onu // vão ter que de fato enfrentar problemas que você não criou, que eu não criei, mas que o mundo exige uma solução.’

Talvez a decisão mais importante que tomei nos últimos 10 anos tenha sido pôr os jovens no centro de tudo que fiz. Pôr o jovem no centro do processo é muito mais fácil do que você imagina! Não é um “pode tudo”, e sim uma liberdade acompanhada, em que eles assumem a direção dos projetos e de forma surpreendente assimilam o princípio da corresponsabilidade. Fazer isso exige entrega, dedicação e respeito a eles. E pode ter certeza: vale muito a pena!”

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