Novo Ensino Médio

[Análise] Construção do Novo Ensino Médio em Pernambuco: princípios para elaboração dos itinerários formativos

Análises e contextos

Por Ana Coelho Vieira Selva (Secretaria de Educação de Pernambuco-SEE/PE e Universidade Federal de Pernambuco/UFPE), Durval Paulo Gomes Júnior (SEE/PE), Alison Fagner de Souza e Silva (SEE/PE) e Ana Carolina Ferreira de Araújo (SEE/PE)

Para a construção do Currículo do Novo Ensino Médio em Pernambuco e, em especial, dos Itinerários Formativos, alguns princípios foram considerados:

  • Os projetos de vida das juventudes, os quais todas as políticas públicas devem se pautar;
  • O percurso profissional dos/as docentes dos sistemas de ensino, sem os quais nenhuma alteração na realidade do espaço escolar poderá ser efetivada;
  • A ampliação do diálogo e a construção colaborativa com diferentes setores da Educação para articulação entre os sentidos da formação das diferentes juventudes e os campos teórico-metodológicos de cada profissional dos sistemas de ensino.

 

Veja também: [Análise] Construção do novo ensino médio em Pernambuco: um olhar sobre os itinerários formativos

 

Com relação aos projetos de vida das juventudes, corroboramos com Camillo (2014) quando destaca que não há juventude. Há juventudes. Isto é, dentre os grupos da mesma idade há gigantescas diferenças, seja por questões de gênero e raça, por aspectos geográficos, entre outros, que influenciam na constituição desses grupos, bem como no acesso às oportunidades.

Em Pernambuco, uma ampla consulta com estudantes da Rede Pública Estadual, em 2019, permitiu uma visão mais estruturada das expectativas sobre o ensino médio e como os conhecimentos e vivências nesta Etapa poderiam contribuir para seus Projetos de Vida. Para grande parte desses estudantes, os olhares para a escola voltam-se, principalmente, para possibilitar o acesso ao Ensino Superior (29%) e o ingresso direto no mercado de trabalho (28%).

Em relação às áreas de conhecimento, o interesse maior foi pela área de Linguagens e suas Tecnologias (24%), seguida de Educação Profissional Tecnológica (22%), Ciências da Natureza e suas Tecnologias (20%), Ciências Humanas e Sociais Aplicadas (17%) e Matemática e suas Tecnologias (17%).

Diante dos interesses apresentados pelas juventudes, o Currículo de Pernambuco foi elaborado com trilhas em cada Área do Conhecimento, a partir do perfil específico para o egresso, envolvendo temas e objetivos referenciados nos Temas Contemporâneos Transversais[1]. Outra estratégia da rede estadual de Pernambuco foi instituir Projeto de Vida enquanto unidade curricular para todas as escolas que ofertam ensino médio, assegurando o espaço para discussão do percurso de cada estudante.

Quanto ao percurso profissional dos docentes dos sistemas de ensino, destacamos que a Base Nacional Comum Curricular – BNCC para o Ensino Médio (BRASIL, 2018) traz competências específicas de áreas do conhecimento. As habilidades previstas para desenvolvimento dos estudantes, inseridas no Currículo de Pernambuco do Ensino Médio, partem da identidade de cada formação docente, fortalecendo a interdisciplinaridade, trazendo novos sentidos para seus estudos, novas provocações a partir da aproximação entre os campos de estudo, conceitos de área, ou mesmo a partir dos projetos desenvolvidos pelos/as docentes e perfis dos egressos constantes em cada trilha das áreas do conhecimento.

Destacamos também as Eletivas[2] na Matriz Curricular do Ensino Médio da Rede Estadual, desde 2018. Um estudo sobre as ofertas das eletivas na Rede Estadual de Pernambuco, em 2020, identificou as temáticas de maior interesse dos estudantes e possibilidades de ofertas a partir do campo de estudo de cada docente. De uma forma geral, se inserem nas Temáticas Contemporâneas Transversais, tais como Meio Ambiente, Economia, Saúde, Cidadania, Multiculturalismo e Ciência e Tecnologia.

No que se refere à ampliação do diálogo e a construção colaborativa com diferentes setores da Educação, devemos destacar a tradição que Pernambuco tem na elaboração democrática, coletiva e participativa na elaboração de seus documentos curriculares.

Considerando a grande necessidade do envolvimento dos diversos atores no processo de elaboração curricular, o Currículo de Pernambuco do Ensino Médio contou com a participação de professores de todas as escolas da rede estadual e de duas redes municipais que ofertam o Ensino Médio, além de estudantes, representantes da rede privada, de Instituições de Públicas de Ensino Superior, de Sindicato de Profissionais de Educação e de outras instituições da sociedade civil.

A ampliação do diálogo não se restringe à elaboração curricular, a vivência desse currículo na escola demanda uma postura de diálogo permanente entre professores e estudantes e entre os próprios professores, além de outros atores da educação. Se tradicionalmente os componentes curriculares conduziam para um isolamento decorrente da especialização, a proposta dos Itinerários Formativos promove um amplo trânsito entre os conhecimentos na intenção de valorizar a discussão, a reflexão e a intervenção na sociedade por parte dos estudantes.

 

Referências

BRASIL. Base Nacional Comum Curricular – Ensino Médio. Brasília,  MEC/Secretaria de Educação Básica, 2018.

Camillo, Eliane Juraski. Elocubrações Sobre Juventude e Cultura Juvenil: no singular ou no plural? II Seminário Integrado de Ensino, Pesquisa e Extensão do IFC. Instituto Federal Catarinense – IF Catarinense Câmpus Camboriú Camboriú – Santa Catarina (2014). Disponível aqui. Acesso em 03 jun. 2021.

 

 

[1] As trilhas Específicas das Áreas do Conhecimento, bem como as Trilhas Integradas (aquelas que integram proporcionalmente 02 áreas de conhecimento) compõem o Currículo de Pernambuco para o Ensino Médio e são: ComunicAÇÃO; Identidades e Expressividades; Leituras e Culturas de Mundo; Matematização, Design e Criatividade; Diversidade Cultural e Territórios; Modos de Vida, Cuidados e Inventividade; Soluções Ótimas; Possibilidades em Rede e Humanização dos Espaços; Tecnologias Digitais; Meio Ambiente e Sociedade; Saúde Coletiva e Qualidade de Vida; Desenvolvimento Social e Sustentabilidade; Direitos Humanos e Participação Social; Juventudes, Liberdade e Protagonismo.

[2] Os componentes Eletivos compõem espaços da Matriz Curricular do Ensino Médio onde são ofertados momentos de estudos e práticas sobre determinados conceitos/temáticas escolhidas a partir da consulta aos estudantes e diante das possibilidades técnicas e pedagógicas das Unidades de Ensino.