Romeu Cestaro, professor na Escola de Ensino Médio em Tempo Integral Capitão Sílvio de Farias, no município de Jaru, em Rondônia.

 

Em 2017, tive o privilégio de ingressar na carreira docente no ensino público em uma escola de Ensino Médio em tempo integral em Rondônia, assumindo a disciplina de Projeto de Vida, além de Matemática (vejam só!), minha área de formação.

Àquela altura, eu já contava com alguns anos de experiência como docente de cursos livres e largos anos como espectador de incontáveis testemunhos das minhas irmãs educadoras, dando conta das alegrias e desventuras de sua vivência. Construí para mim a ideia do quão desafiadora poderia ser a vida de um profissional docente do nosso país.

Como professor de Projeto de Vida, vivenciei o poder transformador de proporcionar ao estudante um espaço de interações e trocas de experiências onde o seu lugar de fala é privilegiado. Convivi com jovens desacreditados por amigos e família, e que jamais cogitavam apostar em suas habilidades e na grandeza de seus sonhos, algo que era “uma mera fantasia”.

O grande desafio é despertar em cada estudante a capacidade de dar vida aos sonhos, provendo ferramentas para estruturar o planejamento de objetivos, metas, estratégias e ações, possibilitando enxergar aquilo que almejam como algo realizável e menos distante da realidade.

Eis um longo caminho que demanda repensar posturas e amadurecer visões, num contexto de aprendizagem que se inicia pela construção da identidade pessoal do jovem. Nesse momento, ele busca respostas às perguntas iniciais de sua existência: “quem sou eu?” ou “qual é o meu papel?” ecoam no espaço da sala de aula entre reflexões e debates que proporcionam a livre expressão de opiniões, direito do qual muitos disfrutam fora do ambiente escolar.

Ser professor de Projeto de Vida significa atuar como mediador, num espaço rico em possibilidades, com extrema sensibilidade e capacidade de ouvir os adolescentes e compreender seus diferentes pontos de vista, estabelecendo um diálogo de igual para igual, considerando que, muito além do conhecimento acadêmico, cada um traga consigo uma extensa bagagem de vivências e valores que não pode ser negligenciada. Devemos ser inspiradores, exercendo papel afirmativo em suas vidas, sendo parceiros cotidianos num processo de ação e transformação no qual provocamos o despertar de seus desejos e a reflexão sobre os caminhos necessários para se chegar onde pretende.

A oportunidade de atuarmos como docentes de Projeto de Vida nos proporciona uma experiência única na qual, ao dialogarmos com jovens e seus projetos de vida, somos levados a encarar nosso papel enquanto educadores. Compreendemos que devemos assumir nossa condição de profissionais inacabados, que a cada dia passamos por processos de desconstrução e reconstrução, algo fundamental para acompanhar e atender às necessidades educacionais dos jovens do nosso tempo, abandonando de vez os resquícios de uma visão tradicionalista do processo de ensino e aprendizagem que por anos predominou em nossa educação.

Educar, hoje, fundamenta-se em formar integralmente o jovem, desenvolvendo não apenas suas habilidades acadêmicas, mas preparando-o para a vida e promovendo o desenvolvimento de competências e habilidades que o auxiliarão para os desafios do mundo contemporâneo. A formação integral dos estudantes é o eixo em que giram os objetivos da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), para a qual deve ser assegurado a cada jovem o desenvolvimento de competências gerais, dentre as quais: “Valorizar a diversidade de saberes e vivências culturais e apropriar-se de conhecimentos e experiências que lhe possibilitem entender as relações próprias do mundo do trabalho e fazer escolhas alinhadas ao exercício da cidadania e ao seu projeto de vida, com liberdade, autonomia, consciência crítica e responsabilidade”.

Além disso, atuar como professor de Projeto de Vida levou-me ao enfrentamento de meu passado enquanto jovem e de meus próprios sonhos, no processo de lidar com os anseios dos adolescentes. Este é um momento que nos exige encarar um caminho nem sempre tão fácil de ser percorrido, pois somos impelidos a enfrentar nossos medos e frustrações, sonhos não realizados e “depositados” na gaveta do esquecimento, e questionarmos quem somos hoje, enquanto apoiamos os estudantes que acreditam não serem merecedores de sonhar.

São muitos os desafios! Contudo, sinto-me afortunado por ter recebido a incumbência de ministrar aulas na disciplina de Projeto de Vida. Ter a oportunidade de experimentar tantas vivências tornou-me um profissional de excelência e, sobretudo, um ser humano melhor em todos os campos da vida.

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