Redes de EI e EF

[Análise] Recomposição das aprendizagens na rede municipal de ensino de Tubarão, em Santa Catarina

Análises e contextos
Recomposição de aprendizagens na rede de ensino em Santa Catarina

*Por Prof. Maurício da Silva – Presidente da Fundação Municipal de Educação, em Tubarão, Santa Catarina

A crise na aprendizagem é anterior à pandemia de Covid-19. Os investimentos na educação aumentam, segundo o Tribunal de Contas, mas não impactam significativamente no aprendizado dos estudantes. Somente no Ideb 2021, a rede municipal de Tubarão conseguiu crescer, com consistência, no Ensino Fundamental I e II, graças ao projeto “Sucesso na Escola, na Vida e no Trabalho”.

Esta crise foi agravada no ano de 2020, quando se lecionou com as escolas fechadas para evitar a proliferação do vírus. O ensino remoto reduziu danos na aprendizagem dos estudantes que puderam contar com internet e ajuda das famílias, mas foi altamente prejudicial para os que não tiveram estas possibilidades. Muitos se esqueceram o que tinham aprendido.

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Esta desigualdade de oportunidade de aprendizagem permaneceu no ano de 2021, mesmo com a retomada das aulas presenciais. Devido à pandemia, um grupo de estudantes foi para a escola todos os dias. Outro, uma semana na escola e outra em casa e, um terceiro grupo, permaneceu estudando somente em casa, por recomendação médica ou opção dos pais.

No segundo semestre de 2021, avançou-se mais, com todos os estudantes na escola, mas a sala de aula ficou bem mais complexa devido ao aumento dos desníveis de aprendizagem, ao luto (muitos estudantes perderam pessoas próximas), ao agravamento das dificuldades financeiras (muitos pais perderam o emprego) e à ansiedade e depressão (causadas pelas situações anteriores, pelo isolamento e possíveis violências).

Como consequência, muitos estudantes não consolidaram o aprendizado dos conteúdos estruturantes (ler, escrever, interpretar textos e resolver problemas com as quatro operações básicas de Matemática), o que dificulta enormemente o aprendizado dos subsequentes. A consequência será a reprovação, que não contribui para o estudante “ficar mais forte” (como demonstram pesquisas do Saeb), se constitui na principal causa intraescolar de evasão (que custa para a sociedade quatro vezes mais do que se estivesse estudando) e faz o município perder dinheiro como preconiza a nova lei do ICMS da educação.

Mas ao aprender os conteúdos estruturantes, e providos de ferramentas on-line ou impressas, os estudantes aprenderão o que quiserem, no momento que precisarem. Por isso, a Fundação Municipal de Educação de Tubarão implementou a Recomposição das Aprendizagens por meio de aprimoramentos no projeto “Sucesso aa Escola, na Vida e no Trabalho”:

1) Fortaleceu o vínculo do estudante com a escola por meio do:

a) Acolhimento, escuta e muita conversa com os estudantes e famílias sobre, principalmente, a importância dos estudos;

b) Monitoramento diário das faltas, chegadas tardias e não realização das tarefas de casa pelos estudantes e encaminhamento, imediato, via Educa Web, para as providências da direção da escola, da Equipe Multiprofissional e da rede de proteção social do município.

2) Depois do enxugamento do currículo, priorizou a leitura, escrita, interpretação de textos e resolução de problemas com as operações básicas da Matemática, utilizando como geradores, os componentes curriculares ciências, geografia e história (o que exige abordagem e avaliação interdisciplinar dos conteúdos) e retirou as provas destes componentes do calendário de provas.

3) Implementou o Reforço no Contraturno, duas vezes por semana, para estudantes com média menor que 7 (sete) em Língua Portuguesa e Matemática.

4) Agrupou estudantes, de uma mesma turma, por dificuldades, o que exige Trabalho Diversificado.

5) Melhorou o diagnóstico das aprendizagens de cada estudante para tornar mais eficaz a aula, a recuperação, o reforço no contraturno e a ajuda das famílias. Para isso, nas provas, cujo modelo é orientado pela Fundação Municipal de Educação:

a) Questões descritivas em quantidade maior do que as de assinalar. Isso ajuda desenvolver a habilidade da comunicação escrita (se aprende a escrever, escrevendo – crucial para a produção textual) e possibilita acompanhar o raciocínio do estudante para identificar onde e porque errou. Ou a recuperação e o reforço no contraturno podem focar nas etapas vencidas da aprendizagem e desconsiderar as ainda não vencidas. Neste caso, cumpre a formalidade burocrática e legal, mas não contribui para sanar a dificuldade na aprendizagem que aumentará com o avançar das aulas. Possibilita, também, constatar que os erros dos estudantes, numa mesma questão, podem ter causas diferentes. Tal constatação seria impossível nas questões de assinalar. Portanto, não basta saber que a resposta está certa (que pode ser por ‘chute’) ou errada. É preciso saber porque está certa ou errada. Possível, somente, com as questões descritivas;

b) Descrição clara dos objetivos de aprendizagem (oportuniza verificar coerência entre currículo enxuto “priorizado”, trabalhado e avaliado) e dos motivos pelos quais etapas da aprendizagem ainda não foram vencidas (possibilita ao estudante, ao professor e famílias saberem as etapas da aprendizagem que foram vencidas e as que precisam ser retomadas).

6) Faz análise e feedback dos instrumentos de avaliação aplicados pelos professores com base no modelo orientado pela Fundação Municipal de Educação (elaboração das questões, diagnóstico pormenorizado da aprendizagem e formas de comunicá-lo etc).

7) Organiza planejamentos coletivos mensais, onde os professores agrupados por ano/série escolar ou componente curricular, trocam experiências sobre como trabalhar os pré-requisitos e elaborar atividades que contribuem para desenvolver as habilidades previstas no Currículo Enxuto ou Priorizado.

8) Compara a aprendizagem de cada bimestre com a dos anteriores, e verifica se o decidido nos planejamentos coletivos foi implementado de forma eficaz.

Essas iniciativas oportunizam aos estudantes fazerem a travessia da dependência para a autonomia.