*Por Karolyne Ferreira, analista de advocacy do Instituto Rodrigo Mendes.

Estudos realizados nas últimas décadas apontam que o Ensino Médio tem sido a etapa da Educação Básica com as maiores taxas de evasão, defasagem de aprendizagem e currículo rígido. Isso tinha implicações diretas com a Educação Especial dadas as condições de permanência que esse grupo enfrenta para concluir sua trajetória escolar. Com a implementação do Novo Ensino Médio, escolas e estudantes se depararam com duas grandes mudanças: o aumento da carga horária e uma flexibilização, com disciplinas obrigatórias e outras eletivas que ficam à critério de escolha dos jovens. A pergunta que fica é: quais os desafios que a antiga estrutura está deixando para a atual em relação ao público-alvo da Educação Especial (estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e superdotação/altas habilidades)?

Veja também: [Análise] Documento reforça compromisso com a educação inclusiva

Veja também: [Análise] Impacto da pandemia em estudantes com deficiência e a perspectiva de futuro

Os microdados do Censo Escolar disponíveis até 2020, pré-apagão de dados, nos permitem enxergar três grandes desafios no ensino e aprendizagem de estudantes com deficiência: a formação continuada de professores, a oferta de Atendimento Educacional Especializado (AEE) e a distorção idade-série.

De acordo com o Censo Escolar, em 2020, a maior parte dos professores regentes do Ensino Médio (97,5%) não tinha formação continuada sobre Educação Especial. Esses mesmos docentes lecionam em classes comuns, ou seja, para todos independentemente de especificidades. Nesse sentido, a falta de formação implica em barreiras atitudinais, comunicacionais e metodológicas no atendimento de jovens com deficiência.

O retrato do AEE mostrava que as taxas de matrículas no Ensino Médio foram reduzidas de 27,5% para 23,6%, de 2017 a 2020. Isso pode refletir uma das hipóteses: a redução da oferta ou a redução da demanda. Vale lembrar que a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva Inclusiva (2008) estabelece que o AEE deve ser complementar (ou suplementar), nunca substitutivo à escolarização e sempre articulado com a proposta pedagógica desenvolvida na classe comum. Além disso, o oferecimento é obrigatório e deve ser realizado no turno inverso ao das aulas. Nos anos finais da Educação Básica, a complexidade dos conteúdos exige um atendimento dedicado e atraente para garantir a permanência do aluno.

Por fim, a distorção idade-série apresentou taxa de 50%, em 2020. Em vez dos adolescentes público-alvo da Educação Especial estudarem com jovens da mesma idade, metade estava em turmas de pelo menos dois anos menos, situação que pode tornar a aprendizagem pouco desafiadora.

Mesmo frente a esse cenário com pouco investimento na formação de educadores, é possível ver uma chama de esperança ao olhar para o envolvimento das famílias. O que se observa é o crescimento do número de matrículas de jovens com deficiência no Ensino Médio em classes comuns. Dados do Censo Escolar de 2022 apontam para mais de 200 mil, o que representa um crescimento 35% em comparação a 2020, quando eram 148 mil estudantes matriculados. Ou seja, um público que deseja trilhar um caminho de construção de conhecimento e oportunidades.

Para que as mudanças propostas no Novo Ensino Médio assegurem a permanência de jovens com deficiência nas escolas, é fundamental investir em melhorias constantes na formação de educadores e gestores, para impulsionar um planejamento pedagógico inclusivo que respeite as singularidades de cada estudante. Também é preciso ampliar a formação de professores de AEE com perfil multifuncional, que trabalhem de maneira colaborativa com os docentes regentes na elaboração de estratégias diversificadas de ensino e na remoção de barreiras, no aumento da variedade de materiais e recursos didáticos, bem como nas formas de avaliação. Temos a responsabilidade de colaborar para que os sistemas de ensino adotem práticas inclusivas, abracem a diversidade e deem condições de aprendizado para que todo jovem desenvolva o máximo do seu potencial e seja protagonista da própria história.

Foto: Zen Chung. Fonte: Pexels. Descrição da imagem: Duas mulheres jovens sentadas em uma escada. Uma delas segura um livro e ambas leem o conteúdo atentamente.

Últimas

Programa Impulso capacita lideranças públicas para fortalecer a educação brasileira

Formação gratuita do Ensina Brasil foca em gestores que coordenam equipes e projetos em secretarias de educação  O Ensina Brasil abriu inscrições para a edição 2026 do Programa Impulso, uma formação intensiva e gratuita voltada a lideranças públicas que atuam na educação básica. A iniciativa tem como objetivo fortalecer a capacidade de gestores que estão na linha de frente da implementação de políticas educacionais, com foco na promoção de equidade e no aumento da presença de mulheres e pessoas negras em posições estratégicas.  As inscrições seguem abertas até 27 de abril e podem ser realizadas em grco.de/impulso-2026.  Para quem é o programa  O Impulso é destinado a profissionais que ocupam posições de gestão no setor público educacional — como Chefes de Divisão, Diretores de Departamento ou Coordenadores de Área — em redes municipais, estaduais ou federais.  Os requisitos para participação são: ter atuado por pelo menos um ano em escolas públicas (como professor(a) ou gestor(a)); estar atualmente em cargo de gestão que coordena equipes e projetos; e desejar ampliar sua atuação institucional.  A turma terá 100 participantes, com compromisso de garantir 50% de mulheres e 50% de pessoas negras entre os selecionados.  Uma jornada de seis meses  O programa acontece ao longo de seis meses, em formato híbrido, combinando encontros presenciais em São Paulo e módulos online. Ao todo, são 80 horas de formação distribuídas em dois encontros presenciais de três dias em São Paulo (junho e dezembro), seis módulos online e encontros mensais de…