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Formação em Santos (SP) aborda alfabetização científica para professores

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Desde 2015, a Secretaria Municipal de Santos, cidade litorânea de São Paulo, se dedica a alfabetizar cientificamente os professores atuantes nas 16 escolas que compõem a rede. As formações pretendem tornar o ensino de Ciências da Natureza menos hermético, mais propositivo e conectado com a realidade dos estudantes da Educação Infantil e Ensino Fundamental da cidade.  

“É uma formação para a ciência percebida a partir do cotidiano. Ela depende da escuta dos alunos, do estudo do território e da compreensão da realidade para planejar atividades de ensino que façam sentido e que tenham potencial de fato para ensinar ciências para as crianças”, explica Fabrício Cruz, biólogo e educador que coordena a formação continuada dos educadores desde sua concepção. 

Embora esse processo tenha se iniciado há cinco anos, ele ganhou força com a aprovação da Base Nacional Curricular Comum (BNCC), que aconteceu em 2017 para a Educação Infantil e o Ensino Fundamental. “Participamos ativamente da construção da Base, estando presentes nos seminários, lendo os documentos. E como ela propõe uma concepção e aprendizagem na qual o conhecimento se adquire com protagonismo, só legitimou os nossos trabalhos”, conta Fabrício.

O biólogo e a educadora Valéria Chagas relatam como se deu essa experiência de formação de professores e como ela desaguou em práticas territoriais que aumentaram a autonomia tanto dos educadores quanto dos estudantes.

Educador se converte em ponte entre aluno, ciência e território 

A iniciativa de alfabetização científica começou em 2015, com a proposta de secretaria de criar feiras de ciência nas escolas municipais. Como professor que já trabalhava princípios investigativos dentro da sala de aula, Fabrício foi convidado a pensar uma formação contínua com professores, que apoiasse a proposição das feiras e os introduzisse à pesquisa investigativa. 

“Nas formações presenciais, propomos que os educadores olhem para o entorno da comunidade da escola, fazendo investigação de problemas reais sensíveis para os alunos, vinculados aos currículos. Ao longo desses anos, a formação transacionou para ajudar os educadores a criar feiras de ciências com modelos mais investigativos e projetos autorais de alunos. Conseguimos perceber uma grande transformação no trabalho de alguns professores”, detalha Fabricio.

As formações acontecem presencialmente uma vez por mês e também abordam estudos do meio, uma prática para educadores que tenham interesse em trabalhar Ciências da Natureza para além dos muros da escola; Incentivando, assim, práticas investigativas que consigam dialogar com as potências e problemáticas do território. “Fizemos formações presenciais em lugares que educadores podiam visitar depois com seus alunos: sítios arqueológicos, territórios de pescadores, manguezais. Territórios que podem trazer várias problemáticas e congregar áreas do conhecimento diversas.”

Entre 2017 e 2018, com a reformulação da matriz curricular, a Secretaria e os educadores optaram por inserir a disciplina de Investigação e Pesquisa, como um componente mobilizador para professores, independentemente de suas áreas de conhecimento, para que eles desenvolvessem propostas mais investigativas. “Se ele era um educador de professor de Matemática e agora está dando a matéria de investigação por pesquisa, ele começa a olhar as próprias práticas na sala da aula de matemática e entender como elas se relacionam com outras disciplinas e áreas”. 

Tudo isso culmina em professores formados continuamente, a partir e em diálogo com seu território. São professores capazes de fazer pontes entre o ensino de Ciências Naturais e a prática cotidiana. Mesmo durante a pandemia, quando as praticamente todas as atividades se deslocaram para ambientes virtuais, as formações continuaram.

 

Uma experiência prática: as crianças investigadoras 

Em 2017, a então professora Valéria Vegas teve a ideia de levar os estudantes de Educação Infantil da escola UME dos Andradas I para a orla da praia de Santos. Ela queria aproximá-los do contato com a natureza e também iniciar um projeto de alfabetização científica.  

“A hipótese era: o que tem na orla da praia que está vivo e o que não está? Levamos as crianças à praia para coletar elementos que já estavam no chão. Juntos, fomos colhendo pedras, folhas, gramas e outros objetivos, naturais ou não”, relembra a educadora, que hoje trabalha na Secretaria. Essa foi sua primeira tentativa de fazer um projeto de investigação científica com as crianças, no qual contou com o apoio da Secretaria e de Fabrício:

“É muito interessante ver como a proposta se desenrola na Educação Infantil. As crianças são naturalmente científicas, porque são do toque, da curiosidade e da observação”, complementa biólogo,

As crianças levaram os objetos recolhidos para dentro da sala de aula, que se converteu em um micro laboratório. Os pequenos cientistas, orientados pela educadores, separaram o que consideravam vivo ou não, criando hipóteses sobre crescimento, ciclo da vida e da natureza. “O processo de validação aconteceu por meio de um teste: plantamos o que era possivelmente vivo ou não debaixo da terra. Plantamos uma semente e uma pedra, e regamos juntos. As crianças monitoraram o que nascia e o que não nascia. Já foi o início de um processo de validação, de observação, de experiência e de testar hipóteses”. 

Em parceria com outras escolas onde também atuava, Valéria conseguiu fazer uma troca entre os achados de crianças de diferentes regiões de Santos. Crianças da orla conseguiram ver o que crianças dos manguezais ou de regiões serranas tinham coletado, trocando informações simbólicas e afetivas sobre sua cidade. Elas também puderam conversar com Fabrício sobre suas descobertas científicas. 

“Esses trabalhos fazem todo sentido no contexto do Base Nacional Curricular Comum”, finaliza Valéria. “Tudo foi feita por interações entre si e com o espaço –  de ir até a praia, coletar, fazer experiências –  enfim, tudo foi feito com uma grande brincadeira que ampliou as possibilidades de aprendizagem dessas crianças.”