Em 2021, a rede municipal de Camaçari (BA), que atende 35 mil estudantes da Educação Infantil ao Ensino fundamental, priorizará alguns aspectos de seu currículo: raciocínio matemático, leitura, escrita e literaturas estarão em foco para o ano letivo que se iniciará em abril.  

Para atender a todos os estudantes, o currículo teve que se adaptar a diversas realidades: do jovem com acesso a uma boa internet ao que precisa colocar o computador no quintal para tentar uma conexão melhor.

“Dizer que o currículo se submeteu ao percurso de vida dos estudantes, não o contrário, é dizer que dentro da rede fazemos a discussão sobre os sujeitos com suas potências, condições, nome, sobrenome e endereço. Fomos aprendendo a conhecer os sujeitos, valorizar diferentes culturas e dinâmicas familiares, reposicionando o currículo dentro disso”, conta a a secretária Neurilene Martins.

O currículo flexibilizado reflete a maleabilidade de uma rede que teve que se reinventar nos últimos anos, e agudamente durante a pandemia. No início de 2020, Camaçari já tinha sistematizado o plano curricular alinhado à BNCC para a Educação Infantil e anos iniciais do Ensino Fundamental e se preparava para a formulação do currículo dos anos finais. Com a pandemia, o cronograma foi alterado para garantir os direitos de aprendizagem de crianças e jovens por meio de caminhos até então inexplorados: ensino híbrido e educação a distância.  

Em 2021, a ideia é  tanto utilizar os aprendizados conquistados a partir da flexibilização e como também fazer um processo avaliativo para entender como dar continuidade a essas aprendizagens, a partir de pontos focais do currículo. “Nosso currículo foi construído a partir das experiências da pandemia. Tinha criança fazendo vídeo e poesia sobre como era estar confinado, pesquisa sobre o coronavírus. Quantos conteúdos nos foram postos pelos alunos!”, partilha Neurilene. 

Escola humanizada: formação de educadores, aprendizados com a família

Quando a pandemia estourou, o programa de Camaçari, chamado Mais e Melhor Educação, se “agigantou”, para usar o verbo da secretária. Os mais de 2 mil servidores começaram a se organizar socialmente para garantir vales e entregas de suprimentos para as famílias. 

Em paralelo, a rede criou uma plataforma digital para continuar a aprendizagem.

“Não existia experiência em educação a distância. Então criamos essa plataforma na nuvem, com propostas elaboradas sob medida para Camaçari e alinhadas à BNCC. Há formações e práticas para crianças desde bebês até o ensino fundamental. Não demorou muito para ver os estudantes interagindo, compartilhando suas práticas”, afirma a secretária.

Para cuidar de um contingente diverso de crianças, algumas com acesso à internet, outras sem, foram criados 102 comitês escolares. Formados por um amplo campo de profissionais, eles mediam a relação das escolas com a plataforma e produzem conteúdos específicos a partir de cada território.

Durante essa atuação, aconteceu uma reaproximação entre escola e família. “O legado de 2020 é que a família está mais circunscrita à escola, melhor entendida e relacionada. Os pais e mães têm familiaridade, se identificam, sabem falar do currículo, e mesmo os pais que não tem nível de instrução estão presentes, dialogam”. 

Outro componente fundamental na manutenção da aprendizagem durante o ano de 2020 foram os momentos de formação de educadores. Prática já recorrente antes da pandemia, as formações foram para além de preparo teórico e serviram para ajudar educadores a lidar com a plataforma, com estudantes, com o contexto da pandemia e também ser um espaço de acolhimento para esse educador. 

“Além disso, havia uma formação toda semana, num projeto chamado Escolas Formadoras. Diretores, gestores, professores e educadores de cerca de 50 escolas se reuniam para discutir suas experiências, reinventando a escola e o currículo a partir de práticas diversas de educação a distância. Foi refletir, estudar, redesenhar e tematizar.”

O currículo flexibilizado para os desafios futuros 

No final do ano letivo de 2020, teve início uma avaliação das aprendizagens, sem caráter reprobatório, como afirma a gerente decurrículo e técnica formadora da Secretaria Municipal de Educação de Camaçari, Hosana de Souza Gonçalves. A ideia foi preparar as redes para os desafios futuros. “Estamos avaliando os estudantes que deixaram as redes, como os do 9º ano do Fundamental, com um simulado. A ideia é estabelecer um parâmetro a partir do que eles nos ofereceram e no que nós ofertamos. É uma ação para compreender como está o desenvolvimento do nosso município”, conta Hosana. Habilidades-foco, como linguagem e raciocínio matemático, foram escolhidas como prioritárias para o ano letivo de 2021. 

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