“Me chamo Jessilane Alves de Souza, mais conhecida como Jessi Alves. Sou Bióloga, professora de Biologia, pós-graduada em Libras e Mestre no Ensino de Biologia. Ganhei visibilidade após passar pelo Big Brother Brasil 2022. Antes do programa, atuei em salas de aula de escolas públicas e particulares da minha região (entorno do Distrito Federal) e acompanhei entre os anos de 2017 a 2021 a implementação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Também vivi o período mais crítico da pandemia, dando aulas por aplicativos de mensagem em um primeiro momento, passando pelas videochamadas até a chegada do modelo híbrido, antes do retorno presencial às salas. 

Nos dois últimos anos, estudei muito sobre a BNCC e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação para entender melhor o funcionamento do sistema educacional brasileiro e a implantação da base. Atualmente, me encontro fora das salas de aula, mas no último ano em que estive atuante, percebi como a pandemia havia impactado no processo ensino-aprendizagem dos meus alunos (da rede privada de ensino) e passei a questionar também sobre esse impacto na rede pública. Não precisamos pesquisar muito para saber que, de fato, há um abismo gigantesco entre esses dois universos, que há muito tempo já existia, mas podemos afirmar que, com a chegada da pandemia, essa distância se tornou ainda maior. 

Veja também: Materiais alinhados à BNCC para apoiar a recomposição de aprendizagens pós-pandemia

Veja também: “Pôr o jovem no centro do processo é muito mais fácil do que você imagina!”

Acredito que, no primeiro ano da pandemia, a educação ainda não conseguia prever todo o impacto que ela causaria, uma vez que acreditávamos que não duraria mais que duas semanas de escolas fechadas. Mas, à medida que a pandemia avançava e todo mundo continuava em casa, foi necessário desenvolver estratégias de todos os tipos, para que os alunos acessassem as aulas e tivessem condições de acesso, como internet, celular ou computador, e também para que não evadissem, o que se tornou ainda mais crítico neste período. Mas todas essas estratégias ainda estavam sendo pensadas para aquele momento em especial. Agora, que sentimos que a pandemia está se eximindo, se torna urgente a necessidade de recompor aprendizagens perdidas, e confesso que esse termo, “Recomposição de Aprendizagem”, ainda é algo muito recente para mim. 

Vejo que, de fato, só no ano de 2022 que houve uma maior mobilização para tal. Então, passei a estudar sobre os efeitos diretos das pandemias na educação para então entender as possibilidades. Percebi que, nas séries iniciais, a gente teve o maior retrocesso, pois boa parte dessas crianças não conseguiram acompanhar as aulas do modo remoto. Os dados estatísticos também mostram que houve, em média, quatro anos de regressão nas fases iniciais do ensino fundamental II. 

Além disso, a pandemia não afetou somente os alunos e o processo de aprendizagem por parte deles, mas também a saúde mental dos professores, que tiveram que aprender de uma hora para a outra como lidar com esse universo da tecnologia em relação aos celulares, computadores, internet e aplicativos de chamada de vídeo. Para muitos de nós, o uso do datashow em sala de aula já era bem complexo. E é sabido que ainda há muito pouco investimento na capacitação dos profissionais da educação que já estão em sala de aula. 

E não só a saúde mental dos professores, mas também a dos alunos em todas as etapas e níveis da educação nacional. Os dados mostram um aumento nos níveis de alunos com depressão e ansiedade. Outro índice assustador e que é emergente sua necessidade de solução é, principalmente, os níveis de evasão escolar. Hoje, mais de 1 milhão de crianças adolescentes estão fora da escola, e isso é muito preocupante. 

Quando se trata do processo de recomposição da aprendizagem, é importante a gente pensar que existe todo um contexto por trás dos estragos pandêmicos, tanto em relação aos problemas enfrentados durante a pandemia quanto, principalmente, os problemas que a pandemia gerou no seu período pós, e falar sobre recomposição de aprendizagem nada mais é do que retomar todos os processos de ensino e aprendizagem na forma mais próxima do que a gente tinha possível. Mesmo sabendo que, na verdade, o que a gente tinha antes já não era o ideal. A educação brasileira já estava muito defasada. 

Acredito que hoje a gente precisa buscar alcançar isso o mais breve possível. Eu sempre acreditei que a educação é o caminho para um futuro melhor, mais justo, igualitário, coerente e crítico. Sabemos que a pandemia afetou não só o Brasil, mas todas as nações ao redor do mundo, e é explicito que países que investem e investiram mais em educação conseguiram sair brevemente deste cenário. 

Agora, mais do que nunca, é o momento de união. O poder público, desde a esfera federal até a municipal, redes de ensino, instituições, profissionais da educação, família, comunidade… Todo mundo junto nesse momento para que a educação seja restabelecida. Sabemos que essa foi a maior interrupção da aprendizagem da história da humanidade e precisamos correr atrás do tempo perdido para minimizar os impactos causados pela pandemia, não apenas na educação, mas também nela. 

Já são vários estudos publicados que mostram o tamanho do problema que temos para resolver. Os dados mostram que parte das crianças não conseguiram acompanhar com frequência todas as orientações passadas no período escolar e as famílias muitas vezes não conseguiram auxiliar, além de todos os problemas tecnológicos e a falta de interação entre os alunos e os professores, que estavam em lados opostos da tela. 

Eu, particularmente, gosto muito de alguns autores que tratam da aprendizagem colaborativa: que é a aprendizagem por colaboração e participação ativa. Por exemplo: Piaget, Vigotski e Ferreiro já traziam esse tipo de aprendizagem. Nesse momento, acredito muito que esse tipo de aprendizagem será essencial para que a gente consiga fazer esse processo de recuperação acontecer de fato. 

A própria BNCC sugere a alfabetização até o segundo ano do ensino fundamental, e ficou nítido que a presença pedagógica do educador pode garantir as estratégias necessárias ao desenvolvimento da alfabetização, pois, pelos recursos disponíveis, muitos não conseguiram. Falo isso porque, no ano de 2021, recebi alunos no sexto ano que, na tese, estavam vindo do quinto ano, mas que, na prática, se expressavam e se comportavam como alunos do terceiro. 

Houve uma queda no amadurecimento desses alunos, e também na aprendizagem, o que pode durar mais de uma década. O que tenho conseguido ler sobre a Recomposição das Aprendizagens traz algumas estratégias que acredito muito que valem a pena serem tomadas, tais como: a formação docente ampliada e focada na capacitação de agentes educacionais para reforço escolar, pois, como já comentei, ainda é muito raso os investimentos em capacitação e reestruturação; intensificação de busca ativa, principalmente agora em que o retorno às salas de aulas já aconteceu e muitos educandos não voltaram por motivos diversos; ampliação na carga horária, para que tenhamos mais tempo na recuperação do tempo perdido e, por consequência, investir na ampliação e criação de mais escolas de tempo integral e materiais estruturados com conteúdos mais objetivos para a recuperação de aprendizagem no contexto escolar e também no ambiente domiciliar, porque acredito também que a família será essencial neste processo. 

E agora, mais do que nunca, atenção. Precisamos estar atentos a todos os movimentos para que a recomposição das aprendizagem, de fato, aconteça e espero que, no novo momento Brasil pós-pandemia e com um novo governo, possamos entender que a educação não é gasto, e sim investimento. E investindo muito em recursos, qualificação e estrutura, será possível. 

Créditos: Iude Richele