Localizada no Território do Sisal, na região do semiárido na Bahia, a cidade de Quijingue tem cerca de 27.500 moradores e 50 escolas municipais, a maioria delas organizadas por núcleos que dão capilaridade ao serviço educacional em mais de 1.270 km² de extensão. Com área majoritariamente rural, esse tipo de organização foi um dos fatores que contribuíram para garantir a participação de todos os educadores da rede durante a criação do referencial curricular municipal, baseado na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e no referencial curricular do estado. 

Segundo Arigésica Andrade Moura, da Coordenação Pedagógica da Secretaria Municipal de Educação de Quijingue e participante do Grupo de Embaixadores da BNCC, a criação do referencial foi iniciada em 2020, no período auge da pandemia, e concluída com sucesso no final de 2021, quando foi aprovado pelo Conselho Municipal de Educação. Nesse período, ela atuou como articuladora local da Undime Bahia e esteve à frente das atividades de sistematização, edição e revisão dos textos que compõem os quatro cadernos curriculares da rede municipal, com a missão de alinhar os direcionamentos da BNCC à cultura e à história da cidade. “O desafio nos foi dado e abraçamos a causa. Com muito engajamento, empenho, dedicação e carinho, a gente conseguiu concluir o nosso currículo com sucesso”, destaca.

Para iniciar esse processo, a rede aderiu ao Programa de (Re)Elaboração dos Referenciais Curriculares nos Municípios Baianos, iniciativa da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação na Bahia (Undime/BA) com apoio do Itaú Social e parceria da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e da União Nacional dos Conselhos Municipais de Educação (Uncme). Assim, participou de um grupo de mais de 400 municípios que contaram com o apoio de coordenadores nos territórios para o trabalho de criar ou recriar currículos escolares de acordo com as diretrizes nacionais.

“A proposta da Undime tinha uma sequência definida e cada município fazia adequações conforme  suas particularidades. Pela primeira vez, Quijingue elaborou seu currículo de forma coletiva. Fizemos a adesão com a Undime e, em seguida, a formação de comissões e grupos de estudo do referencial da Bahia e da BNCC. 

Na segunda etapa, estudamos os materiais teóricos e as lives formativas disponibilizadas pela Undime e UFBA, que trouxeram orientações para nos apoiar na criação do currículo”, conta Arigésica. Ela atuou como mediadora para levar os materiais de estudo aos coordenadores locais e teve apoio da secretaria para se dedicar à tarefa durante o período pandêmico. A cada formação com a Undime, ela repassava o conteúdo para o grupo, mas logo notou que a linguagem nem sempre era tão acessível e iniciou um processo de adaptação para o material ser compreendido  pelo público da rede. 

“Sem poder fazer reuniões presenciais, muitos educadores não se sentiam aptos a produzir os documentos ou pensavam que não era de responsabilidade dos professores. Mas estávamos encantados com a proposta porque, em geral, os documentos da educação são produzidos ‘de cima para baixo’, já vêm prontos, e nós estávamos com a oportunidade ímpar de ter autoria em nosso currículo. Como não se envolver?”, relembra. 

A princípio, a rede seguiu a orientação da Undime com grupos de estudos por área de conhecimento, mas nas reuniões com as coordenações perceberam que seria melhor organizar por núcleos de escolas, onde já havia o contato e o vínculo entre os educadores. “Fizemos o ajuste e a mobilização aconteceu de forma mais efetiva. Os professores tinham contato direto com suas coordenações, aproximando o diálogo”. Nessa fase, organizou com uma colega do município de Serrinha, também no Território do Sisal, mais de dez lives em redes sociais com diversos convidados e que a ajudaram a interagir ainda mais com os professores e dar respostas para as dúvidas que apresentavam. 

Referencial com características locais

O ponto alto do trabalho foi a Semana do Documento Curricular Referencial de Quijingue, que aconteceu em novembro de 2020, como conta Arigésica. “Os demais municípios da região estavam adiantados na produção, mas nós ainda estávamos engatinhando. Por isso reservamos uma semana dedicada à escrita do currículo, com reunião de todos os professores e núcleos”.

Foi a partir desse trabalho coletivo que Arigésica editou a primeira versão do material. “Eu tive um cuidado muito grande para me manter atenta ao que os colegas diziam, a suas ansiedades e respeitando também o olhar de cada um. É preciso ter respeito e cuidado com a colocação do outro, pois existe uma identidade autoral nesse texto”, explica.

Após a sistematização, o referencial foi aberto para consulta pública, no início de 2021. “Foi uma etapa que tivemos contribuições muito boas de professores e também da comunidade, como artistas e movimentos locais que contribuíram para enriquecer nossa proposta. É muito gratificante ver os colegas reconhecendo a cidade no texto final”, diz Arigésica. Dentre os diferenciais regionais, o material levou fatos históricos e características culturais e geográficas para as habilidades a serem trabalhadas nas salas de aula, como o fato histórico chamado Fogo de Maceté, o primeiro confronto entre Antônio Conselheiro com as tropas do governo, que ocorreu em uma fazenda da cidade, assim como a passagem de Lampião pela região.

Outro ponto de destaque local e citado nos referenciais é o Palasito Quijingue, o único meteorito desse tipo encontrado no Brasil e que foi descoberto na cidade, assim como fósseis pré-históricos registrados pela UFBA na região. “Tudo isso era trabalhado por um professor ou outro, mas a rede toda não tinha conhecimento desses fatos. Quando o referencial é produzido, esses fatos são inseridos no texto e tornamos públicas essas informações. Muitos colegas hoje têm esses conhecimentos e isso vai ser trabalhado nas escolas”, explica a coordenadora.

Além dos fatos marcantes, as características regionais permeiam todos os cadernos dos referenciais curriculares, desde as ilustrações até os textos que compõem os materiais. Assim, a versão final foi editada com poemas, fotos e memórias de artistas e ilustrados com produções de professores, estudantes e fotos feitas por pessoas da comunidade em eventos locais como teatro, capoeira e futebol. “Tentamos trazer essa representatividade da melhor forma possível, com a valorização das produções e do olhar local. Quando um pai tira uma foto e manda para o professor e depois vê em um documento como esse, mostramos que ele também é capaz de ajudar. A educação se faz com todos, não é só por quem fez uma faculdade ou estudo fora. Não está vinculado ao título, os saberes perpassam todos nós. Acho que o referencial e o programa trouxeram isso, porque todos nós somos capazes, todos nós possuímos saberes”, destaca Arigésica.

O currículo como parte do planejamento de 2022

A jornada pedagógica de 2022 foi iniciada com base no referencial curricular e, desde abril, a rede trabalha também com a criação dos projetos políticos pedagógicos pelas escolas, com apoio do programa de (Re)elaboração dos PPPs nas escolas dos municípios baianos, da Undime Bahia. Em paralelo, atua para fazer a recomposição das aprendizagens e dar acolhimento às questões socioemocionais que ficaram mais evidentes após a pandemia.

“O desafio nos foi dado: elaborar o referencial curricular municipal. O ideal de uma educação pautada na equidade, de um currículo contextualizado com o semiárido, que tivesse cores, cheiros, ritmos, sabores de nossa terra, nos motivou na jornada. Na vivência, aprendemos que, como bem coloca João Cabral de Melo Neto ‘um galo sozinho não tece uma manhã. Ele sempre precisará de outros galos’. Assim também é na educação. Um educador sozinho não faz a educação. Ele sempre precisará de outros. Quem são os outros? Professores, coordenadores, diretores, gestores públicos, pais, associações, sindicatos, enfim, a comunidade. Para tecermos uma educação cujo fim é o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho, precisamos desses outros, da atuação de uma coletividade. É possível. O trabalho continua”.

Conheça os Embaixadores da BNCC

Como citamos no início deste texto, Arigésica faz parte do grupo de Embaixadores da BNCC, formado por representantes de secretarias municipais e estaduais de diferentes estados, de todas as regiões do Brasil e que tem experiência e comprometimento com a implementação dos currículos alinhados à BNCC (conheça os integrantes de 2022).

A iniciativa, apoiada pelo Movimento pela Base, tem dois objetivos principais: 

  • Valorizar o trabalho realizado por técnicos de secretarias municipais e estaduais de educação relacionado à implementação da BNCC e dos currículos, dando visibilidade às boas práticas de gestão;
  • Proporcionar a formação aos profissionais, oferecendo palestras, e momentos para troca de experiências para aprofundamento dos conhecimentos.