Toda segunda-feira, educadoras representantes das 24 escolas municipais de Educação Infantil e Ensino Fundamental de Lagoa Santa, na grande Belo Horizonte, em Minas Gerais, se reúnem para debater um assunto que tem sido foco da cidade há 15 anos: a alfabetização de crianças. Os encontros fazem parte do programa chamado Alfaletrar, desenvolvido pela especialista Magda Soares, professora emérita da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais, com a coordenação do Núcleo de Alfabetização e Letramento da rede municipal de ensino.

Criado com objetivo de reverter os baixos índices de alfabetização que marcaram a rede pública de Lagoa Santa por anos, o projeto é visto atualmente como uma inspiração para outras cidades mineiras e de todo o país. O trabalho do Núcleo de Alfabetização e Letramento, composto pelos representantes das 24 escolas, consiste em dois pilares principais: garantir a formação dos cerca de 500 educadores da rede pelo programa Alfaletrar e realizar a avaliação periódica do processo de alfabetização em todas as escolas que atendem crianças na faixa de 4 a 10 anos de idade. 

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Diferentemente das avaliações em escala a nível federal, o processo avaliativo em Lagoa Santa é frequente e tem caráter diagnóstico e formativo. Segundo Janair Cândida Cassiano, coordenadora do Núcleo de Alfabetização e Letramento desde 2014 e braço direito de Magda no projeto, o principal foco da avaliação em escala feita pela rede não é definir notas, mas sim permitir a intervenção do processo de alfabetização ao longo do ano letivo.

“Todo ano, realizamos três diagnósticos em rede. O primeiro é feito no início do período letivo e permite ao professor saber como agir no primeiro semestre. O segundo acontece em junho, antes do recesso, e é quando avaliamos o que foi possível avançar e em que será necessário agir no segundo semestre. Por fim, realizamos mais um diagnóstico entre outubro e novembro, que analisa o percurso ao longo do ciclo e auxilia o professor do ano seguinte a se preparar para a turma que ele vai lecionar”, explica.

Janair conta que todo esse trabalho avaliativo é feito em parceria com as professoras representantes do Núcleo de Alfabetização e Letramento nas escolas, sendo ao menos uma por escola. “São elas que fazem a ponte com as professoras regentes e favorecem a formação em rede”, explica. Mas nem sempre foi assim. Antes do Alfaletrar, a rede contava com iniciativas isoladas de alfabetização, dependendo de cada escola definir as metas e objetivos para essa etapa, o que levava a discrepâncias no resultado. 

Com a parceria com Magda Soares, a partir de 2007 a rede passou a intensificar a formação continuada, definindo metas coletivas e também específicas para cada escola, sempre de acordo com um planejamento amplo feito pela rede. O programa teve sucesso logo nos primeiros anos e tornou-se uma política pública por meio de um decreto que garantiu sua longevidade e permanência, mesmo com eventuais mudanças de gestão.

Avaliação atrelada à formação

De acordo com Janair, a avaliação da alfabetização na rede começou logo após o início do projeto Alfaletrar. “No primeiro momento, quando a rede elaborou as metas, começamos a trabalhar com os professores da formação para se embasarem nas habilidades necessárias para cada etapa. Foi quando passamos a ter um padrão de ensino. Desde então, uma escola da periferia, do centro ou de qualquer lugar tem as mesmas metas e pode trabalhar da mesma maneira. No ano seguinte, com as escolas caminhando em igualdade, surgiu a necessidade de estabelecer mecanismos para mensurar as metas. Foi quando definimos o formato da avaliação periódica que é feita atualmente”.

A coordenadora explica que após cada avaliação os dados são organizados em gráficos de acordo com as questões do diagnóstico. “A matriz de cada diagnóstico é elaborada dentro do Núcleo de Alfabetização e Letramento com base em metas mensuráveis e usadas para toda a rede. São metas em progressão e consideram habilidades específicas de cada ano de escolaridade, desde a Educação Infantil até o 5º ano do Ensino Fundamental. Nosso objetivo com a matriz de avaliação é que os professores conheçam o processo de alfabetização, não apenas as metas referentes à sua turma”.

Os aspectos analisados contemplam escrita, leitura e oralidade, incluindo desde a conceitualização da escrita até o nível de leitura de palavras, passando por compreensão e interpretação de textos e a consciência fonológica adequada para cada ano letivo, dentre outros pontos. “Com esse sistema, podemos fazer uma análise de cada escola, turma e de cada aluno ao longo de seu percurso, garantindo um acompanhamento progressivo. Os resultados são usados constantemente para refazer o planejamento e embasar as formações”, detalha.

Nos encontros de formação semanal, as demandas das turmas são estudadas pelo núcleo, que elabora oficinas e encontros mensais de repasse com todos os professores, diretores e pedagogos, para que possam rever as práticas dentro das escolas.

Alinhamento com a BNCC e o currículo mineiro

Em 2020, quando a rede alinhou seu currículo à Base Nacional Comum Curricular (BNCC) por meio da adesão ao Currículo Mineiro, a equipe do núcleo também atuou para identificar os pontos necessários de adaptação. “Quando a BNCC foi definida, comparamos as propostas e complementamos as metas necessárias, reestruturando a nossa proposta curricular em um estudo feito com a rede inteira. Já fazíamos quase tudo o que estava contemplado na BNCC e no currículo mineiro e, como temos uma formação em rede, foi mais simples fazer as adequações”, relembra Janair.

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Replanejamento com base em evidências

A aplicação da avaliação três vezes ao ano é feita pelos professores regentes em parceria com representantes dos núcleos, em um ciclo de duas semanas, que prevê um momento de elaboração das provas, de revisão, de aplicação por sala e de diagnóstico. Ao finalizar, preenchem um gráfico com os pontos notados em cada meta e conseguem visualizar as dificuldades apresentadas pela turma em um determinado componente. Assim, os gráficos de cada escola compõem um retrato completo da rede.

“Os pontos a serem avaliados em cada diagnóstico contemplam aspectos trabalhados pelas próprias professoras no dia a dia, a partir das metas definidas para o período. Durante a análise dos resultados é feita a classificação dos alunos pelo nível de escrita com base no gráfico e no quadro de palavras usadas na prova. Os descritores demonstram os erros mais comuns, os alunos que apresentaram mais dificuldades, as possíveis causas dessas dificuldades e quais intervenções podem ser realizadas”, conta Janair.

A partir dessa etapa, o professor regente consegue identificar quais atividades precisará retomar com a turma, bem como as atividades extras e os pontos em que pode ou não avançar. “Cada sala faz a prova em um dia diferente, para que possa ser acompanhada pela professora de núcleo. Juntas, os docentes identificam quais alunos conseguem fazer a prova a partir do enunciado e quais precisam de auxílio na compreensão das questões. É também uma avaliação formativa”, completa.

Desafios do cotidiano escolar e da pandemia

Segundo a professora Eliana Pereira Araújo e Silva, representante do Núcleo de Alfabetização na Escola Municipal Dona Marucas, embora a avaliação aconteça três vezes ao ano, o apoio do núcleo é constante. “Quinzenalmente, revejo o planejamento de alfabetização com as professoras que lecionam na mesma escola que eu, analisando se as atividades estão de acordo com o que precisa ser desenvolvido. A partir das dificuldades apresentadas, eu atuo com elas em sala de aula e faço uma demonstração de como podem trabalhar com determinada meta, sugerindo atividades e desenvolvendo sequências didáticas específicas para cada caso”, conta a educadora.

Com a volta dos alunos ao cenário presencial, o trabalho passou também a focar em pontos que foram mais prejudicados ao longo do período de aulas online e semipresencial. “Notamos, por exemplo, que nesses dois anos não foi feito um trabalho com a letra cursiva, que depende de técnicas passadas pelo educador com as crianças, e algumas foram muito prejudicadas. Muitas educadoras, especialmente no 4º e 5º ano, não estavam preparadas para retomar essas técnicas, pois nessa etapa o aluno já deveria escrever com mais agilidade. Esse é um dos pontos que temos analisado, mas há outros, como consciência fonológica e fluência, que são mais difíceis de serem desenvolvidos longe da escola e precisamos focar neste ano”, explica.

Sempre que necessário, a orientação constante da representante de núcleo também inclui o atendimento individualizado com os alunos, o que permite identificar, por meio de jogos e sequências didáticas específicas, o que precisa ser retomado para que ele avance. “O diagnóstico acontece todos os dias, pois os professores encontram dificuldades diariamente nesse processo de alfabetização. Mas é por meio do diagnóstico periódico que ele pode revisar se as metas definidas foram alcançadas e como podem agir em cada turma. Antes do projeto, os professores ficavam muito inseguros, pois não sabiam quais metas deveriam ser atingidas. Com a atuação do núcleo, o trabalho é feito em continuidade e ele sabe para onde seguir com a turma”, completa Eliana. 

O sucesso do Núcleo de Alfabetização inspirou a rede municipal a criar outros grupos, com núcleo de Matemática, de História, das Linguagens e de Ciências, por exemplo. Segundo Janair Cassiano, o projeto não está “pronto e acabado”, mas sim em constante melhoria e mudança. “Metas que antes cobrávamos em um determinado ano letivo passaram a ser vistas antes, pois com o trabalho do Alfaletrar os alunos foram demonstrando que podiam mais e fomos ampliando essas metas. O professor passou a saber como desenvolver determinadas habilidades, sabendo de onde partir e aonde chegar, ampliando o nível de alfabetização dos alunos”, conclui.

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