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Defasagem na alfabetização: Sud Mennucci investe em apoio para melhorar proficiência dos alunos

Boas práticas
Defasagem na alfabetização: Sud Mennucci investe em apoio aos alunos

O ano escolar no município de Sud Mennucci, rede com cerca de 1.100 alunos no interior de São Paulo, se iniciou com defasagem de aprendizagem em todas as séries, especialmente no ciclo de alfabetização. “Tínhamos um histórico de distorção-idade série de 3% que ultrapassou os 10% com a pandemia”, diz Luiz Miguel Martins Garcia, secretário de Educação de Sud Mennucci e presidente da União dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime).  Além da queda no nível de proficiência, encontraram ainda o desafio de grande heterogeneidade nas aprendizagens de uma mesma turma. 

O atendimento para apoiar os alunos no processo de alfabetização até o 9º ano começou ainda na pandemia. Após o retorno presencial nas escolas em 2022, a rede investiu em duas ações voltadas especificamente para a recomposição de aprendizagem. Todas as escolas passaram a contar com um professor de referência, que atua junto à gestão escolar com foco no aprendizado dos estudantes. Com olhar para todos os alunos, o apoio e as intervenções propostas por esse profissional têm foco em dificuldades mais pontuais. Já para lidar com os casos mais complexos de defasagem e com as necessidades de cada aluno de forma mais personalizada, em Março de 2022 foi criado o Núcleo  de Ensino Híbrido. Além disso, a secretaria de Educação utiliza dos momentos de formação continuada para também tratar deste tema.

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Para desenvolver o plano de ação para atacar as defasagens em alfabetização, o município de Sud Mennucci considerou informações das pesquisas realizadas pela Undime, que apresentavam cenários e boas práticas de outras redes; dados de avaliação diagnóstica; e informações obtidas no diálogo com professores e gestores escolares. “Ter informação foi muito importante para entender melhor as necessidades, fazer gestão e transformar em ações o desafio que tínhamos”, avalia Luiz Miguel.

O núcleo de Ensino Híbrido é um espaço que recebe alunos de todas as escolas.  Formado por 12 professores escolhidos por suas habilidades com psicomotricidade, inclusão, competências socioemocionais e alfabetização, o Núcleo recebe atualmente 197 alunos, que se dividem no período da manhã e da tarde. O número mais reduzido de estudantes permite que os professores acompanhem agrupamentos menores, de acordo com o nível de cada grupo, e trabalhem defasagens mais específicas na aprendizagem de cada estudante, sem perder conexão com o currículo. 

“Em cada escola, o professor avalia a necessidade de encaminhar o aluno para o Núcleo. Como o professor do Núcleo já conhece os desafios que precisam ser trabalhados com cada criança e possuem um número reduzido de estudantes para acompanhar, é possível personalizar mais o ensino”, explica Eliana Gonçalves Pereira, coordenadora do programa de recomposição de aprendizagem do município.

Para o professor que está na sala de aula regular, a medida tem colaborado já que o número de demandas na escola  é alto e o tempo, curto. “Temos uma angústia por querer fazer mais pelos nossos alunos, mas não tem como parar o conteúdo para fazer um acompanhamento individualizado”, diz Juliana Aparecida Souza de Conde, professora do 2º ano na EMEF Maria Flávia Galvão Fumagalli. “O Núcleo está nos ajudando a dar o tempo que os alunos precisam para aprender. Os alunos também ficam mais motivados por poderem compartilhar com colegas de nível igual ao deles”. 

As atividades do Núcleo de Ensino Híbrido acontecem paralelamente ao horário escolar. A opção por realizar as atividades de recomposição no mesmo turno das aulas foi pensada para garantir equidade. “Não temos como garantir que a criança que mais precisa e está mais vulnerável social e pedagogicamente frequente o contraturno”, explica Luiz Miguel. Assim, duas vezes por semana, após a primeira aula, um ônibus passa pelas escolas para buscar os alunos que fazem parte do programa de recomposição e os traz de volta para a última aula. Para este grupo de estudantes, entre a segunda e quarta aula, o foco é recompor as aprendizagens. 

Para garantir que eles não percam o que está sendo discutido em aula, a professora Juliana combina três estratégias: envia as orientações das aulas perdidas para os alunos lerem em casa; propõem uma lição de casa “extra” relacionado ao que foi trabalhado em sala de aula (material que depois recebe uma devolutiva da docente); e organiza as atividades considerando o desafio de aprendizagem do grupo presente. “Se uma atividade é do nível que os alunos do Núcleo precisam, eu encaixo quando eles estão na aula. Se exigem habilidades que eles ainda não desenvolveram, organizo para os dias em que eles estão no projeto para manter os alunos de níveis mais avançados também motivados”, explica Juliana. 

Não existe uma recomendação específica de quanto tempo os estudantes precisam ficar no programa: “Funciona como uma espécie de atendimento clínico: o aluno passa por ele, depois de um tempo recebe ‘alta’ e dá lugar a um outro aluno que precisa”, conta a coordenadora Eliana, que já chegou a receber 220 estudantes simultaneamente no Núcleo. No dia a dia, o professor da sala regular, ao perceber os avanços, pode solicitar que o aluno retome a rotina integral com sua turma de origem. Mas, a cada bimestre, o Núcleo também avalia o desenvolvimento das crianças para atualizar o nível do grupo em que estão ou liberá-las.

O principal foco trabalhado no programa que recebe alunos do 1º ao 9º ano é a leitura e escrita. “A alfabetização é a base para desenvolver qualquer outra aprendizagem. É ela quem vai abrir portas para que todo o conhecimento possa fluir. Por isso, o Núcleo é estratégico para dar foco ao que é mais grave”, aponta Luiz Miguel. É exatamente o que a professora Juliana tem visto na prática. Ela já teve alguns alunos que passaram pelo Núcleo. Um dos casos foi um aluno com boas habilidades matemáticas, mas que estava atrasado no processo de escrita. Após passar um bimestre e meio no programa, conseguiu se classificar para a primeira etapa das Olimpíadas de Matemática e aguarda os resultados da próxima fase. “Para participar das Olimpíadas, meu aluno precisou ler e responder as questões sozinho. A alfabetização dá essa autonomia. O aluno que consegue ler, consegue compreender melhor os enunciados e pode resolver as questões colocadas”. 

O trabalho de recomposição deve seguir nos próximos anos, evoluindo conforme as necessidades encontradas. Luiz Miguel reforça que não existem modelos prontos, mas que com informação e diálogo com professores e equipes gestoras, cada rede pode encontrar sua forma de lidar com a defasagem deixada pela pandemia. “É um processo de cultura reflexiva contínua que precisa acontecer. Precisamos ter consciência que o processo de recomposição não vai terminar em 2022 ou 2023 . Por isso, precisamos acompanhar as ações, estar dispostos a testar e mudar as ações em curso sempre que for necessário”.