Redes de EI e EF

“Não adianta ter um currículo de primeiro mundo com professores que não o compreendem”

Boas práticasEmbaixadores da BNCC
formação continuada professores Acre

“Meu nome é Antonio Jesus de Sousa Bispo, sou coordenador de ensino no município de Brasiléia, no Acre, e faço parte dos Embaixadores da BNCC. Uma das minhas missões na secretaria de ensino é fortalecer a formação continuada dos professores para que atuem com os novos currículos alinhados à Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Esse tem sido o foco do nosso trabalho desde 2019, mas minha trajetória com a educação é de mais longa data, pois já atuei como coordenador pedagógico de escolas multisseriadas, do programa Asas da Florestania e coordenador pedagógico em escolas de Ensino Fundamental e Médio. Enfim, uma pequena história na educação.

Aqui em Brasiléia nós contamos com 44 escolas e mais de 3 mil estudantes, incluindo turmas de Educação Infantil e Anos Iniciais do Ensino Fundamental, com unidades urbanas e rurais, além de escolas nucleadas e outras multisseriadas. Meu trabalho é realizado em parceria com a equipe técnica pedagógica de dez pessoas, colegas que atuam diretamente nas escolas, que vão às salas de aula e acompanham o trabalho de coordenadores e professores.

Veja também: A implementação do currículo em Brasiléia (AC)

Veja também: Formação dos professores para avançar na implementação do currículo em Brasiléia (AC)

Nossa rede é pequena, somos um município de fronteira, atendemos alunos indígenas e estamos no interior, então temos desafios que os grandes centros não têm. Porém, dentro do nosso interior, a gente consegue se destacar. Com a BNCC, por exemplo, começamos os estudos em 2019. Eu e outros dois colegas da secretaria fomos algumas vezes para a capital, Rio Branco, e nos reunimos com pessoas de todo o estado.

A novidade chegou à Brasiléia quando conseguimos levar o que aprendemos para a cidade, buscando oferecer a mesma qualidade de formação e adequando alguns pontos para nossa realidade. Reunimos nossos colegas e engajamos a equipe. Alguns ainda não acreditavam, mas depois a plena maioria passou a acreditar nessa nova educação trazida pela BNCC. Fizemos as formações, trabalhamos o currículo e os professores aprovaram.

Na rede, fizemos adesão ao currículo estadual, porque, quando a secretaria estadual desenhou esse currículo junto com a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) e incluiu formações para reformulá-lo, nós acompanhamos de perto e pudemos contribuir como município. Assim, a maioria das redes do estado teve um entendimento de que iríamos usar o currículo estadual de referência, pois a dificuldade não estava no currículo, mas sim na formação de professores.

O objetivo, portanto, foi aperfeiçoar o que já tínhamos e atuar muito forte na formação continuada para que os professores pudessem compreender esse documento. Afinal, não adianta ter um currículo de primeiro mundo com professores que não o compreendem. Havia esse distanciamento e isso era consenso entre formadores de outras cidades também.

Nosso objetivo foi aproximar o professor desse conhecimento que estava no currículo para transformar em práticas pedagógicas. Isso foi o que buscamos em 2019 e 2020. Depois, a pandemia acabou nos tirando um pouco desse processo de formações da BNCC, mas vamos retomar e continuar esse estudo, pois ainda não está consolidado e precisamos nos fortalecer.

Desafios e avanços

Por ser um município de fronteira e no interior, temos diversas particularidades, mas também desafios em comum a outras redes. Um deles é a evasão escolar, contra a qual lutamos diariamente. Aqui, porém, isso afeta muito os alunos indígenas, por exemplo, que mesmo morando na zona urbana evadem da escola algumas vezes ao ano para retornar às suas regiões. Também temos períodos de dificuldade no retorno das aulas, em virtude de chuvas, que afetam o ciclo letivo. Essas particularidades impactam nossas formações, que são pensadas em conjunto com a equipe da secretaria e as escolas. 

Mesmo assim, vemos que com os esforços recentes estamos conseguindo avançar. Nossa nota no último Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), por exemplo, foi de 5.8, a maior do Acre, e servirá de ponto de partida para debatermos nossos objetivos no ano que vem. Afinal, cabe a nós refletir: essa é uma boa nota? Não. É uma nota padrão e foi afetada por fatores da pandemia. O que, então, queremos para 2023? Queremos crescer, que os alunos tenham mais rendimento. Vamos buscar superar esse desafio. 

Assim como fazemos todo ano, vamos nos basear no que aconteceu no ciclo anterior para pensar um novo ano letivo, e desenvolver uma formação adequada tanto para a Educação Infantil quanto o Ensino Fundamental urbano, as escolas multisseriadas e as nucleadas. Essa reflexão geral vai endereçar um ou dois temas mais urgentes que precisam ser trabalhados e, a partir dali, as equipes vão aprimorar e desenvolver de modo mais específico para cada público. Nosso desafio é evoluir mais, dentro do interior, mas pensando sempre no melhor.

Esse é o formato que seguimos todo ano. Em geral, nos reunimos três vezes no ciclo letivo para pensar desse modo mais amplo, mas também temos uma programação de grupos menores para estudo, que vão se adequando às necessidades que surgem no percurso. A gente programa, mas não deixa de sentir a temperatura do que está acontecendo nas escolas. Quando surge uma nova demanda, paramos, reunimos a equipe, olhamos para esse ponto, identificamos se merece ser feita uma atividade específica sobre isso. Neste ano, por exemplo, tivemos uma demanda de falar sobre a inteligência emocional para o professor, não apenas sobre o socioemocional que está na BNCC, mas com uma demanda para o professor suportar o retorno ao presencial. Foi uma programação que precisamos fortalecer para fazer chegar às escolas.

Ainda assim, temos o desafio de adequar a formação permanente continuada com a carga horária dos educadores. Esse é o desafio que estamos nos programando muito bem para 2023, para não sufocar o professor, não atrapalhar seu período tão curto de descanso e não acumular carga horária de aula com a formação. Tentamos sempre minimizar os impactos do trabalho na vida do professor.

Os elementos para uma boa formação continuada

Um dos avanços que já fizemos na formação foi dividi-la por segmentos, seguindo as orientações do Ministério da Educação (MEC) e as premissas que foram passadas durante as formações da BNCC. Quando os encontros eram com todos os segmentos juntos, os professores não se sentiam plenamente contemplados. Mas quando a gente foca na realidade deles, com base no que eles vivenciam em suas turmas, isso muda. A vivência de cada um é diferente, tem sua particularidade. Hoje, não vemos pedagogicamente sentido em trabalhar todos juntos.

Além disso, passamos a realizar uma boa sondagem das unidades de ensino, acompanhar de perto o que está acontecendo nas escolas. Não podemos ficar distantes, senão não é uma formação com base no real. Prezamos também pela participação coletiva dos técnicos, gestores e coordenadores. Acreditamos que podemos construir com eles muitas coisas ao observar o que os líderes identificam no dia a dia da escola. 

Outros pontos positivos incluem o uso das metodologias ativas como homologia de processos, pois acreditamos que o professor precisa vivenciar essa metodologia na formação para levar à sua sala de aula. Também passamos a separar temáticas alinhadas ao currículo e à BNCC, com pautas bem pensadas e traçadas com antecedência, mesmo que seja necessário adaptar depois. E tudo isso, é claro, contando com uma equipe alinhada e que possa atuar de maneira coordenada. 

Papel de articulador

Esse trabalho de apoiar a formação continuada dos professores com foco na BNCC fez o município ganhar visibilidade, não só da Undime, como de outras redes e também de instituições do terceiro setor. Nesse período, eu já tive a chance de participar de formações com Instituto Ayrton Senna, Centro Lemann, Instituto Rodrigo Mendes e também o Movimento pela Base. Por isso, hoje me vejo com um papel de articulador, de motivador, de elo entre o que está sendo discutido nacionalmente e o município.

Essas organizações me aproximaram de um conhecimento que eu não visualizava. Quando eu entro para esses grupos e começo a estudar e ver essa implementação da BNCC, a importância que isso tem, eu também reproduzo com esse pensamento de educação para o futuro, educação para o século 21, que contemple ainda mais o aluno de forma integral. E agora, meus colegas têm a oportunidade de ver essa nova educação, esse novo ambiente escolar que estamos estudando. Eu me vejo como aquele que está dentro da equipe e direciona um olhar para que se reflita sobre o que estamos fazendo e para fazer ainda melhor. Estamos nesse papel de reflexão, ação e reflexão, como diria Paulo Freire.

Hoje, a compreensão dos professores sobre a formação continuada é boa, mesmo quando a rede inteira se reúne para estudar, ninguém vem de cara feia, a gente superou isso. Os professores chegam com expectativas para o dia da formação, cumprem os horários, chegam esperançosos de algo positivo para eles. Essa é uma transformação, porque se a formação não for algo que realmente contribua com o educador na prática, o docente vai achar que está perdendo tempo. Ele vai às formações para encontrar alternativas coletivas e para progredir, sair de um ponto para o outro.”

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